3 de maio de 2009

492

Photo by Alice atrás do Espelho

Recortada em papeis de música,
Sento-me nos sons de recordações,
Onze badaladas na minha cabeça.

Rumores de pensamentos respiram,
Visões entaladas em taças criativas,
Descem sem forma num número.

Alucinações luxuosas dançam de pé,
Dedos subservientes tocam as teclas,
Beijos misteriosos caem em pautas férteis.

Correntes de sopro atadas na minha arrecadação,
Claves de sol deitadas em cabelos de céu,
Segredam baixinho em movimentos da tua boca.

Apenas equações perdidas em vértices que se aproximam…

Debaixo dos teus sonhos...

Photo by Alice atrás do Espelho

Naquela República todos viviam conforme as regras. O sistema rolava sobre umas rodas desdentadas, cuja engrenagem era oleada por regentes industrializados e cegos cientistas. Ninguém mijava fora do penico. Todos o faziam em uníssono e em locais apropriados, até porque a multa era alta e o preço nem sempre se conseguia pagar. A vida naquela República era pacata, sem grandes atribulações e ninguém se atrevia a quebrar nenhuma das Grandes regras.
Durante o dia, todos estavam destinados a tarefas apaziguadoras e repetitivas, nada se perdia dentro da azáfama consumista. A polícia espectral espiava a cada esquina, esperando que o próximo Bandido Nefelibata surgisse com as mãos cheias de esperanças, para os neutralizar. Os Delatores Reluzentes escondiam-se em luzes de candeeiros programados, tentando assim detectar os possíveis escapistas do sistema. Embora a segurança fosse constrita, era algo necessário para o Grande Bem de todos. “O trabalho é para ser feito com o corpo todo”, diziam os cartazes de propaganda espalhados pelas ruas. Ideias de pensadores cansados aproveitadas por criativos comerciais, que depois de digeridas eram esboçadas em esquiços de anúncios diários, para todos as consumirem. E ao som de uma música compassada tudo trabalhava maquinalmente, debaixo daquela orquestra formiguenta.
Durante a noite e sem luzes de néon todos se encolhiam em suas casas, para um descanso escurecido. Havia quem treinasse as suas perícias laborais à meia-luz de velhas velas, suando o cansaço do dia e fustigando a carne de pensamentos perniciosos. Mas, o entretenimento preferido e permitido naquela República era o jogo das Quadraturas, onde se tentava encaixar um círculo em moldes de madeira quadrados. Servia tanto para adultos como para crianças desaustinadas. O ritmo da noite era constante, chegando a hora Fatal não havia ninguém que não colocasse em suas têmporas, os adesivos redondos cheios de fios. Adesivos fornecidos pela República todos os meses, que sugavam durante o repouso, os sonhos individuais devolvendo às cabecitas ocas sonhos colectivos. Serviam de controlo do tráfego onírico e transformava-os em imagens formatadas, zelando assim, pelo sono de todos.
Alisa deixou cair o saco das ferramentas, no chão da entrada, incomodando o tecto da rabugenta vizinha e despiu a farda de lona. Depois de um árduo trabalho igual a muitos outros, o único que lhe apetecia era um longo banho, mas apenas tinha um molho de fichas higiénicas de cinco minutos e tinha de as racionar para o resto da semana. Abriu a rugosa porta do armário e tirou o comprimido da 5ª feira, era verde – dia de legumes concentrados – e atirou-o para dentro de uma panela. Entrou no cubículo de higienização metalizado, a ficha caiu na ranhura e uma massagem aquática começou a relaxar os músculos tensos. Vestiu a farda de dormir e sentou-se num banco a saborear o manjar verde. Todos os dias a rotina era sempre a mesma, comer, arrumar, lavar e engraxar as botas, não seria hoje que o seu quotidiano mudaria. Estendeu a farda de lona, arrumou as ferramentas na sacola e foi-se deitar.
A lua cobriu-se de negro. Estava alta e empoleirada no seu trono – o céu – largou o véu sobre as estrelas que tilintavam em luzes fugidias, deixando-as atarantadamente apaixonadas. No denso quarto de Alisa, umas linhas azuladas expressavam-se, faíscas intermitentes dançavam penduradas entre os fios condutores de sonhos. Fusíveis queimados caiam para o chão e derrapando nos buracos da madeira, trocavam galhardetes com a máquina partida. Naquela noite Alisa sonhou. Sonhos só dela sem ruídos ou interferências de terceiros. Abandonou todas as imagens formatadas e entregou-se à profunda escuridão que nunca conhecera. Viu mundos, viveu amores, chorou alegrias e cantou a desesperos perdidos; sentiu os desencontros íntimos que sempre a aconchegaram, mesmo quando ela não os viu. Beijou a morte, abraçou solidões paradas na teia das suas células, enterneceu incertezas e sorriu em confusas aventuras desenhadas em sua alma. Nessa noite, as tintas dos seus sonhos pintaram quadros de texturas quentes e alucinou dentro do seu corpo, deixando marcas inquebráveis em sua memória.
Pontualmente o sol acordou e como qualquer outra manhã, Alisa preparou-se para o cinzento trabalho. A propaganda matinal acompanhou o pequeno-almoço, “O trabalho é a dimensão única que comanda todo o Universo”, calçou as botas e arrumou a loiça. Mas, Alisa reparou que o seu dormente corpo se insinuava a uma nova música, sons que só ela ouvia e cantarolava baixinho dentro de si. Havia algo nela que estava diferente, que mudara durante a noite. O silêncio morto tinha desaparecido e um outro silêncio alojara-se em sua carne. Era mais colorido, brincalhão e sábio, era o silêncio da sua presença. Tentou recompor-se e disfarçar, saiu de casa com a sacola às costas e entrou na marcha quotidiana de um sistema metódico e espartano.
Ao final da tarde, Alisa chegou a casa atirou com a sacola de ferramentas, despiu-se da pesada farda e repetiu tudo o que sempre fizera ordenadamente – tomar banho, comer, arrumar, lavar e engraxar as botas – mas agora, as tarefas tinham o seu próprio compasso e ritmo, pois ali dentro a música era outra, podia soltar-se.
Ao deitar, Alisa notou que os fios condutores estavam todos queimados e percebeu então o que lhe acontecera. Sorriu numa gargalhada retumbante, porque sabia o que a esperava. E durante uma semana Alisa teve uma vida dupla, o parco cinzentismo dominava durante o dia e à noite podia visitar qualquer um dos seus mundos, sem guia turístico a estorvar ou escrutinadores indesejáveis a espreitar. Escondia-se de dia para escavar-se de noite. Durante uma semana Alisa infringiu gravemente contra a República, foi feliz. Uma arrojada sonhadora de ideias ambulantes que abriu espaço dentro de si para explorar sentimentos pendurados, em tendões doridos. Mas o mês ia acabando e a polícia decidiu bater a porta de Alisa numa 6ª feira solarenga.

- Boa tarde menina.
- Boa tarde. O que desejam?
- Viemos para a inspecção mensal.
- Ah…não é necessário aqui está tudo em ordem. – Alisa meio entalada na ombreira da porta.
- Calculo que sim, pois assim a República o deseja, mas teremos de passar uma vistoria na mesma – um dos polícias empurrou a porta numa entrada forçada – e sabe como é, ordens são para se cumprir e caso contrario o calabouço é nosso amigo.
- Tudo bem, façam o favor de entrar. – Enquanto pensava numa maneira de esconder os fios condutores queimados – Estava no meu banho diário, se não se importarem dão licença que me vá vestir a meu quarto?
- Com certeza menina. Tem 10 minutos.

Alisa recolheu-se à privacidade do seu quarto, vestiu a farda de andar por casa e tentou esconder os fios condutores danificados debaixo do colchão da larga cama, esperando que nenhum dos policias os puxassem para verificar o seu queimado estado.

- Desculpem a demora, mas tive de secar um pouco o cabelo. – Abrindo a porta do quarto.
- Não tem qualquer tipo de problema menina. Por aqui está tudo dentro das Grandes regras, não tem nada nestas divisões, que nos conduzam a actividades ilícitas. Só falta então o seu quarto para verificarmos a máquina Onírica. – E o polícia espadaúdo efectuo novamente uma entrada forçada, desta vez no quarto de Alisa.

Os dois agentes de autoridade escrutinaram a divisão com olhos de lince, à procura de qualquer coisa que os alimentasse naquela tarde. Tinham fome. Urgência em exercer a ordem republicana, que tanto trabalho lhes deu a aprender. Qualquer pretexto servia para embirrar, mas um dos agentes sem querer puxou demais os fios condutores e depararam-se com uma surpresa desejada. Sorriram. Sorriram maliciosamente. Tinham sede de violência sem razão e precisavam de saciá-la antes que o dia acabasse.

- A menina vai ter de nos acompanhar.
- Eu não fiz nada. Só reparei nisso agora que os senhores agentes puxaram os fios. Nunca mexo nessas coisas, pois sei que não é permitido. – Alisa tentando fazer-se de desentendida.
- Pois nós entendemos a sua situação, mas os fios estavam escondidos debaixo do seu colchão, o que prova que alguém empurrou para lá. E se mais ninguém entra nesta casa…entenda-me só pode ter sido a menina.
- Vai ter que se explicar e acabou o assunto! – Gritou o outro agente mais austero.

Alisa sem explicação possível para o que inevitavelmente lhe aconteceu e sem querer desfazer-se do que já tinha construído em si, tenta fugir dos agentes. Em micro segundos Alisa ganha uma nova consciência. Apercebendo-se do que perdera todos os dias que trabalhava no mundo cinzento da ditadora República, luta pela libertação do seu poder onírico. Os agentes, treinados em golpes baixos e esquemas sacristas, apanharam-na entre o banco da ténue cozinha e a porta da rua.

- O que esconde debaixo de si? - Agarrando Alisa pelo pescoço, contra a palpitante parede – São esperanças? Ideias ou sonhos? Qualquer um deles é nocivo para a República!
- Estou-me a borrifar para a nojenta República! – Esboçava Alisa entre dentes cerrados.
- Vá diga! Ou espancamo-la em pedaços!

Num trovejar das suas forças, Alisa empurra os agentes para o chão, corre para o meio da rua, berrando para que todos ouvissem, “Eu não abandono os meus sonhos”. Mas, os agentes esmurram-na com sede, com fome e pujança nos dedos desejosos por pura destruição. Engolfada em sangue da resistência, Alisa apara os golpes traidores com o corpo de uma dignidade reencontrada. Fecha os olhos agarrada às nuvens viscerais e lentamente a vitalidade seca esvai-se em fumos de sólidas certezas, a morte é mais um delírio na sua recente panóplia de imagens. Numa última cuspidela de suspiro, Alisa sente os alicerces da sua essência, pois debaixo de si ela esconde os seus Sonhos.

E tu o que escondes debaixo de ti…?!

1 de maio de 2009

Cubos desalinhados


Photo by Alice atrás do Espelho

27 de abril de 2009

Botão profundo

Photo by Alice atrás do Espelho

Retalhos de Silêncio...



Nota: Ver video em modo HQ (carregar botão vermelho na barra de apresentação do YouTube).

Mamilo Solar

Photo by Alice atrás do Espelho

25 de abril de 2009

Velha criança

Photo by Alice atrás do Espelho

Liberdade continuada

Photo by Alice atrás do Espelho

24 de abril de 2009

Linhas de pensamento

Photo by Alice atrás do Espelho

23 de abril de 2009

Reflexos...


Photo by Alice atrás do Espelho

Na boca das pétalas

Photo by Alice atrás do Espelho

21 de abril de 2009

Espelho Dourado

Photo by Alice atrás do Espelho

Piolho em cabelo de Alface

Photo by Alice atrás do Espelho

Espetada na tua mão...

Photo by Alice atrás do Espelho

Tiras de Espuma

Photo by Alice atrás do Espelho

20 de abril de 2009

Jiribungo Escarlate

Photo by Alice atrás do Espelho

Entrei na gare em passos lentos e despreocupados. No bolso, moedas soltas cantarolavam ao ritmo do Grande Relógio de parede, tal como, um coro de lindas meninas que acompanham um vigoroso Vocalista. Na mala, tudo corria como planeado, a roupa fora escolhida aleatoriamente e estava pronta a servir, em caso de necessidade inesperada. Dei três passos em frente e dois para a esquerda, para entrar num pequeno compartimento de fria pedra. Dentro do escuro guichet, estava uma atenta anã, loira de beiços pintados de vermelho esborratado.

- Boa tarde, para onde?
- Boa tarde. – Retirei as soltas moedas do bolso e coloquei-as ordenadamente no balcão - Até onde posso ir com - enquanto contava as moedas - 74 Eras e 16 Dias?
- Bem deixe-me ver – pegou num colorido mapa ferroviário e explicou de forma miúda – tem duas hipóteses com essa quantia. Bayonne Beach ou Carnasse Café.

Parei para pensar. Por um lado, Bayonne Beach era um sítio calmo, cheio de luz e endireitadas ruas. O sítio preferido de gordas famílias e estrangeiros limpos, para observar as bizarrias culinárias da Mãe Natureza. Era de facto um local idílico para se relaxar entre fartas árvores, cujos ramos pingavam frutas doces e flores cheirosas.
Por outro lado, Carnasse Café era um cabaret subterrâneo de ténue luz, cheio de velhas mesas e cadeiras envolvidas em fumo. O sitio habitual de vultos curiosos e movimentos sub-reptícios, cujos copos estavam sempre sujos e a musica acordada até altas horas da noite.

- Queria um para Carnasse Café! – Apetecia-me acção e não contemplação.
- Aqui tem. – Escorregou um minúsculo ticket insonso, daquela mãozinha de unhas pintadas. – Faça uma boa viagem.
- Obrigada.

Sob os calcanhares emborrachados, dei meia volta e fui-me sentar num dos bancos perdidos do longo corredor. Pouco tempo depois, um homem atarracado, vestido de azul morto e olhar bovino, gritou “Carnasse Café a sair dentro de 5 contratempos!”. Agarrei na intrépida mala, entrei no ferrugento comboio e coloquei as rodelas de esponja nos ouvidos. Tocavam uma sequência de músicas escolhidas criteriosamente.
A viagem iniciou-se com solavancos esguios e sedutores e sob a almofada daquele acto sexual, entre os carris e as pesadas rodas metálicas, deixei-me adormecer. Não me lembro do que sonhei, mas sei que tinha qualquer coisa a ver, com baldes de pássaros atirados para um rio de vento.
Acordei com os apitos esganiçados do comboio. Meio estremunhada, recompus-me daquele sono rápido e fui espargida pelos gafanhotos do revisor farfalhudo, que esbracejava que nem um ganso, para que todos os passageiros saíssem do bendito comboio.
A gare de Carnasse Café encheu-se de gente salpicada por meios-tons e a luz do inicio de noite, fazia ricochete entre os enormes vitrais deslavados. A fome apertou o botão das minhas calças e em frente a um quiosque amarelado parei para comer. Enquanto bebia um sumo e trincava um pão esfarelado, observei uma mulher já de idade madura dormir refastelada, por cima de uns livros abandonados. A sua respiração embriagada fazia lembrar a de uma criança, depois de uma mamada maternal e a sua expressão enrugada, esbatia-se nas páginas velhas dos esburacados livros.
Estava de pé, de frente para a única rua em Carnasse, polvilhada de lâmpadas pendentes em janelas desalinhadas e a minha respiração confundia-se com os vapores dos rotos esgotos. O concelho de Carnasse era constituído por um único e denso edifício, populado por casas de albergue, motéis de terceira classe e pensões escorregadias. Todo aquele concelho vivia à custa do Cabaret e os seus habitantes eram gentes cinzentas, manchadas de nódoas monocromáticas com almas de madeira esfarrapada.
Ah como era bom estar ali, no meio daquela miséria lodosa mas recheada de tesouros resplandecentes, de pessoas não comuns e atrevidas, de ratos que se confundem com cães de pequeno porte, de trocas carnais e comerciais duvidosas. Carnasse era realmente pitoresca, havia uma azáfama inebriante nela que me fazia lá voltar inúmeras vezes, à procura das sensações mais entranhadas e viscerais que me fora habituando.
Ao chegar ao final da única rua de Carnasse, desci umas escadas peganhentas e ao entrar no cabaret, imediatamente as minhas narinas se cruzaram com o fedor de tabaco antigo, suor azedo e bebida entornada. Recordei o vermelho familiar que amaciava as paredes duras, continuava tudo tal e qual como tivera deixado da última vez, apenas as personagens ocupantes do escuro cenário, diferiam desta lembrança.
Sentei-me ao bar na companhia da minha mala, despi o inquebrável agasalho e atirei-o para cima da cadeira vaga a meu lado.

- Boa noite. O que vai desejar hoje? – Perguntou o distinto empregado do bar a coçar as ramelas.
- Qual é a bebida da noite?
- Ah…hoje penso que é a de Jiribungo! – Apontou para um quadro de ardósia, com um sorriso entre as cáries negras.
- Não conheço. O que é isso Jiribungo Escarlate?
- É um fruto bastante doce, sumarento e cheio de sementes. Bem coado dá um sumo melhor que o álcool, porque não tem os efeitos secundários deste.
- Oh Seixas, lá estás tu a tentar a enganar o pessoal – disse mais desinibida – isso deve ser mas é uma fruta que apodreceu para ai e agora vocês vendem como sumo.
- Estou a falar a sério. Mas fazemos o seguinte, ofereço o primeiro copo se não gostares não pagas, ok?
- Venha ele então!

Seixas despejou maquinalmente para um sujo copo o tal sumo e resolvi verificar olhando em volta, se mais alguém estava a beber Jiribungo. Não queria ser a única a cair na esparrela do Seixas. Ao contrário do que seria de esperar, quase todos os vultos daquele cabaret estavam a beber Jiribungo em copos largos. Beberiquei a medo o meu copo, um sabor bastante doce e quadrado espalhou-se pelas minhas papilas gustativas. Tinha um travo a terra no final, mas era agradável.
A três cadeiras de mim, estava um jovem casal em poses deveras provocatórias. A rapariga lambia luxuriosamente o cinzeiro, como se o dito objecto tivesse sido mergulhado em cinzas de mel, e o companheiro esperava que ela acabasse com as ávidas lambidelas, para a beijar apaixonadamente. Fitei-os durante um bocado até Seixas ressurgir, por detrás do comprido e transparente espelho que se encaixava comodamente, nas prateleiras das bebidas.

- Então é bom ou não? – Silvou Seixas com as duas mãos apoiadas no bar.
- É bastante agradável. Venho cá amanhã para beber outro, fico por aqui uns dias.
- Atenção – com um ar meio fanfarrão – porque o efeito alucinogénio de Jeribungo, só começa após umas horas do seu consumo.
- E só agora é que avisas... Olha lá, já agora explica-me uma coisa, porquê é que lhe chamam de Escarlate? Se o conteúdo do copo que aqui tenho é espessamente verde?
- Não queremos nada que não esteja de acordo com as paredes e cortinas desta casa, pois não?
- Pois não…

6 de abril de 2009

Falta de inspiração

Photo by Alice atrás do Espelho

Escreve, escreve, escreve,
Respira, respira e transpira,
Pensa, pensa, pensa.

Puxa, arrasta, desfaz,
Arranha a alma que sangra,
Estampada numa página muda.

Cospe um pouco de letras,
Amarfanhadas e toscas atropelam-se,
Em delírios contorcidos e vozes fugazes.

Letras que saltam, que fogem, que gritam desconfortáveis,
Nada cresce, nada vence, nada escuta.
Não consegues…

Desiste, refaz, rescreve,
Puxa pelos cabelos da cabeça vazia,
E um olhar obnubilado alcança a tua mão.

A velocidade interpela a criatividade.
Mete para dentro de uma rede imaginária,
Aquilo que não consegues meter para fora.

Falta regar uma vida em crescimento,
Que se esmiúça por palavras sentidas,
Metidas num buraco, onde toupeiras esgravatam,
E alcançam a solidão tranquilizante pela…

Falta de inspiração!




4 de abril de 2009

Carne de Metal

Photo by Alice atrás do Espelho

Desaparafusa sentimentos,
A teoria de Z que não passa por X,
Cálculos carnais sem qualquer hipotenusa,
Respiram mil narinas em lombo reluzente,
Olhos atarraxados a filamentos curto-circuitados,
Ideias precisas executadas rapidamente,
Abstracções enferrujadas que não funcionam,
Linguagem oleada em bocas metálicas,
Funções manejadas por ossos de agulhas,
Comportamentos mecânicos em combustão,
Excesso de informação circulatória,

Falha no sistema!
É favor de reiniciar máquina.
Vsseeenniiiiiiiiiinnnggdddaaaahhhooommm….

Floresta florescente

Photo by Alice atrás do Espelho

Deitada numa relva de pensamentos,
Cheiro o perfume da tua tempestade.
Morreste entre pétalas caídas no corpo da terra,
E a inocência perdeste em submissa seiva.

Caules cortados por espirais de ventos ritmados,
Dançam e cantam agora em uníssono.
Deita-te a meu lado e ouve a cor das flores,
Cujas palavras picam no chão da chuva.

Raízes de prazer seguram o tormento de desertas planícies,
E a loucura de um sol desorientado espreita.
Entre nuvens incandescentes, borboletas viciadas desaparecem.
Imagens de azul-pálido beijam a brisa, que paira numa recordação.

Não sou uma santa em teu armário de sorrisos,
Nem estátua alimentada por um sentimento verde.